Na viagem para a aldeia dos Pinheiros, Lázaro interpela incessantemente Fernão sobre o que acontecera, quem eram eles e o que acontecera com a janela que derretera. Uma pergunta disparada atrás da outra, ligada, cada uma, a uma suposição da resposta. Era o efeito da máscara. Monique estava quieta, deitada na parte de trás do coche, e Fernão estava como sempre, pois o gás não o atingia mais.
— Quem são vocês e o que foi aquilo e quem eram aqueles na rua?! — de todas as milhares de perguntas que povoavam o cérebro super-estimulado de Lázaro essas foram as que primeiro se materializaram.
— Acalma-te homem… Tudo ao seu tempo. Agora é hora de assimilação do gás que inalas pela máscara. Respira fundo e pausadamente e tua mente produzirá algumas das respostas. Calma, te peço. — argumentou Fernão com o chiado peculiar da máscara.
— Monsieur, sugiro que esclareça o máximo agora, antes que o efeito acabe. Não demores como demorou comigo. — disse a ruiva, sentando-se ao tirar os óculos e a máscara.
Lázaro começou a racionalizar cada letra das palavras ditas pelos dois como se elas se projetassem na frente de seu rosto. A frase “gás que inalas” foi a que mais bailou no ar, entrando e saindo de seu nariz e boca, circulando sua cabeça, indo e vindo de encontro aos seus olhos. A frase “Tua mente produzirá algumas das respostas” começou a brotar da “gás que inalas” e crescer como uma árvore, galho por galho, folha por folha e de seus frutos emergiram mais e mais palavras que caíam no solo imaginário e eram varridas por um vento. “Miragem” e “cirurgia” surgiram, depois “relógio”, “motor”, “coração”, “Europa”, “doença”, “cacto”, “cristal”, “surpresa”, “claridade”, “inteligência” e mais uma monstruosa profusão de vocábulos que ele nunca tinha ouvido, mas que, de alguma forma, sabia o significado.
Fernão esboçou um sorriso ao perceber que o neófito estava tendo as alucinações esperadas. Calculou o tempo e desligou o respirador traseiro da máscara de Lázaro. “Chega dessa brincadeira” pensou ele. Porém riu abertamente quando Lázaro disparou as sentenças que achou corretas:
— Por longo tempo você tem andado buscando uma forma de melhorar a capacidade mental das pessoas, estou correto? Aplicou-me um composto de extratos vegetais para que pudesse receber bem a carga gasosa da máscara. Esta permeou todo o meu cérebro para que as sensações e impressões se estreitassem e se unissem, aumentando minha capacidade de raciocínio, concentração e imaginação. Continuo sob o efeito desse gás por mais duas horas aproximadamente, quando o filtrarei de meu sangue e o expelirei pela minha urina. Obviamente voltarei a ter a capacidade mental inicial e ficarei tentado a me envenenar novamente com tal substância. E me tornando dependente, fico ligado a vocês dois como um escravo. Por vosso riso, posso dizer que estou correto?
— Nem tu, minha cara, se expressaste melhor em teu tempo! — disse, olhando para mulher, que também ria surpreendida.
— Lázaro, se tivesses estudado antes de ter experimentado a Melhoria, talvez fosses plenamente exato em tuas conjecturas. Todavia, e lembrando que tua origem é muito pobre, teu parco conhecimento sobre os mistérios da botânica e da mineralogia lhe deu uma diferença que teus antecessores não tiveram, e por isso pereceram. Este gás “venenoso” como o chama, faz exatamente o que entendeste, exceto por uma coisa: não ficarás dependente dele, pois tu não almejas tanto. Tua criação humilde não te prenderá na ambição por conhecimento e usarás a Melhoria, como a chamo, apenas em momentos de necessidade, como o que passamos há poucas horas. Acalmas teu coração sobre isso: ninguém te escravizou nem intenciona tal fim. Neste momento, tua ignorância é tua benção, caro Lázaro. Quando voltares ao teu normal, te ensinarei a usar a máscara. Pois muito do que vivencias agora, alterado, adormecerá em tua mente e será como um sonho bizarro, talvez um pesadelo que desejará esquecer.
Lázaro ouvia a explicação de Fernão e tudo fazia sentido, como se surgissem as peças que faltavam para o quebra-cabeças ficar completo. E mais imagens estranhas se formavam diante de seus olhos. Começou a ficar com medo e seu coração bondoso chorou de vergonha de tantos atos maliciosos que tinha enterrado muito fundo em sua mente e que agora vinham à tona. Fantasmas de pessoas que tinha assassinado, imagens de seus familiares, pessoas que tinha conhecido e abusado. Tudo num turbilhão que durou, na sua percepção de tempo, alguns instantes, mas que, realmente, durou algumas horas. E adormeceu.
Acordou sentindo cheiro de café sendo torrado e ouvindo os sons típicos das fazendas, com animais e trabalho. Reconheceu a aldeia mas não tinha idéia de como tinha chegado lá. Levantou-se e foi esvaziar a bexiga. Urina com sangue, escura e ardida.
Sentiu uma vertigem leve e se deu conta que já tinha passado algum tempo da hora do almoço e sentiu o estômago arder de fome. Viu uma mulher de cabelos vermelhos preparando algo num fogão de chão e um homem de corpo grande conversando com ela. Reconheceu-o como o homem que tentara assaltar na noite anterior e teve a sensação de um sonho com fumaça, tiros, fogo e fantasmas. A vertigem piorou muito e quase caiu. Procurou sem sucesso sua garrucha e começou a ficar assustado, lembrando das palavras do homem da noite anterior, sobre morte e renascimento. Quis fugir mas as pernas falseavam a cada passo. Ouviu alguém chamando um tal de Lázaro repetidas vezes e não deu importância. Quando a vista clareou um pouco viu a mulher olhando para ele e chamando a ELE de Lázaro! Mãos fortes o seguraram pelos ombros e percebeu que o homem o estava aprumando e o conduzindo para onde a mulher estava. Sentou-se e, virando para o lado, vomitou repetidas vezes.
— Que fracote! Fracote e porcalhão! — enojou-se a mulher. — E disseste que este seria diferente dos outros… E agora, que tal? Só me faltava este morrer também…
— Deixa o pobre em paz, orquídea! Ficaste pior e nem quer se lembrar! Lázaro ficará muito melhor com teu café e este pão. Pegue e coma, irmão. Coma que te fará bem. Conversaremos assim que te recompores.
— Não foi um sonho, então… Foi de verdade… Quem é o senhor?
— Sou Fernão de Quintana e esta é nossa irmã Monique. Por meus afazeres me chamam de Le Forge, a forja. Você pode nos chamar simplesmente de irmão e irmã.